Desceu lentamente a escada estreita de metal que o largou na estação que o aguardava com indiferença. Era a terceira paragem, desde o início da viagem. Deu os primeiros passos por entre centenas de passageiros que procuravam o seu destino naquele cais, aparentemente, caótico. Olhou o relógio, agarrou com determinação o carrinho de metal e procurou a saída. A bagagem abria caminho e parecia farejar as pernas dos transeuntes mais distraídos.
Ao fundo da sala, esquecida, a máquina de bebidas engoliu com sofreguidão as moedas e tremeu ao libertar uma garrafa de água. Encostado, por entre tragos demorados, observava a sala cujas paredes se elevavam até ao limite de vários andares. Conseguiu contar doze. À sua frente analisou um trabalho em azulejo onde destacou várias figuras que, em festa, dançavam e passam debaixo de arcos ornamentados. Pareceu-lhe familiar aquele quadro. Uma estranha melodia ocupou a sua memória. Cantarolou, maquinalmente, dá-lhe,dá-lhe, dá-lhe, com o alho...
Deixou na caixa amarela a garrafa esgotada e retomou o sentido da saída. Vagueou pelo passeio que acompanhava a fachada do edifício e reparou nas árvores frondosas cujas folhas se entregavam ao vento numa ondulação cujo ritmo só eles marcavam. Por momentos, ouviu, sob as árvores alinhadas, um alarido que o cativou. Apurou a vista e reparou nas várias barracas cobertas por um pano cru, dentado na parte frontal, que se distribuiam por todo o espaço atapetado pelo verde da erva que ali crescia. Vários figurantes erravam por ali com algum objectivo. Os sons e as imagens lembravam-lhe uma feira. O relinchar de um cavalo junto ao pelourinho deixou no ar uma nostalgia que ele não sabia explicar.
Um autocarro quebrou esta visão. Encostou lentamente ao passeio, balançou nas suspenções, libertou a pressão e abriu as portas automáticas que ofereceram passagem às crianças que saíram à procura dos degraus, encandeadas pela forte luz solar. Vinham de sacola ao ombro e libertavam um aroma marcado pelo protector, transformado pelo suor, pelo sol e pela areia. Iam felizes.
Só ele parecia não saber para onde ir. Brincou com uma pedra do passeio que achou melhor não pontapear. Reparou que acabava ali a fachada do edifício da estação e que o muro que lhe dava continuidade não escondia por completo uma chaminé vermelha e amarela que se elevava alegre, de entre outros objectos por ali armazenados: velhos carris, macacões, bonés, lenços... Mais ao fundo destacava-se um mastro. Ainda segurava uma vela branca que se oferecia ao vento que lhe tocava para que recordasse as grandes viagens do passado. Parecia um barco que gozava o merecido descanso depois de ter descoberto a Ilha Desconhecida. Estranhou o anglicismo que resistia num papel de cenário amarrotado: Sold. Que história esconderia aquele pedaço de cenário!?
Voltou a olhar o relógio. Uma voz abafada mas habitual irrompeu: "Senhores passageiros com destino a 2009-2010 é favor chegar à secretaria."Uma lágrima percorreu o seu rosto. Acenou com simpatia e entrou no museu que o convidava mesmo em frente.
Ao fundo da sala, esquecida, a máquina de bebidas engoliu com sofreguidão as moedas e tremeu ao libertar uma garrafa de água. Encostado, por entre tragos demorados, observava a sala cujas paredes se elevavam até ao limite de vários andares. Conseguiu contar doze. À sua frente analisou um trabalho em azulejo onde destacou várias figuras que, em festa, dançavam e passam debaixo de arcos ornamentados. Pareceu-lhe familiar aquele quadro. Uma estranha melodia ocupou a sua memória. Cantarolou, maquinalmente, dá-lhe,dá-lhe, dá-lhe, com o alho...
Deixou na caixa amarela a garrafa esgotada e retomou o sentido da saída. Vagueou pelo passeio que acompanhava a fachada do edifício e reparou nas árvores frondosas cujas folhas se entregavam ao vento numa ondulação cujo ritmo só eles marcavam. Por momentos, ouviu, sob as árvores alinhadas, um alarido que o cativou. Apurou a vista e reparou nas várias barracas cobertas por um pano cru, dentado na parte frontal, que se distribuiam por todo o espaço atapetado pelo verde da erva que ali crescia. Vários figurantes erravam por ali com algum objectivo. Os sons e as imagens lembravam-lhe uma feira. O relinchar de um cavalo junto ao pelourinho deixou no ar uma nostalgia que ele não sabia explicar.
Um autocarro quebrou esta visão. Encostou lentamente ao passeio, balançou nas suspenções, libertou a pressão e abriu as portas automáticas que ofereceram passagem às crianças que saíram à procura dos degraus, encandeadas pela forte luz solar. Vinham de sacola ao ombro e libertavam um aroma marcado pelo protector, transformado pelo suor, pelo sol e pela areia. Iam felizes.
Só ele parecia não saber para onde ir. Brincou com uma pedra do passeio que achou melhor não pontapear. Reparou que acabava ali a fachada do edifício da estação e que o muro que lhe dava continuidade não escondia por completo uma chaminé vermelha e amarela que se elevava alegre, de entre outros objectos por ali armazenados: velhos carris, macacões, bonés, lenços... Mais ao fundo destacava-se um mastro. Ainda segurava uma vela branca que se oferecia ao vento que lhe tocava para que recordasse as grandes viagens do passado. Parecia um barco que gozava o merecido descanso depois de ter descoberto a Ilha Desconhecida. Estranhou o anglicismo que resistia num papel de cenário amarrotado: Sold. Que história esconderia aquele pedaço de cenário!?
Voltou a olhar o relógio. Uma voz abafada mas habitual irrompeu: "Senhores passageiros com destino a 2009-2010 é favor chegar à secretaria."Uma lágrima percorreu o seu rosto. Acenou com simpatia e entrou no museu que o convidava mesmo em frente.
E se de repente alguém dissesse que nas veias também corre inspiração?! :)
ResponderEliminarIsabel Dias